sexta-feira, 21 de abril de 2017

Precisamos falar sobre A Cabana


Aviso: O texto abaixo contém spoilers e reflexões sobre o Livro e o Filme “A Cabana”. Se você não leu o livro ou não assistiu ao filme e deseja continuar, recomendamos que consulte a sinopse, sendo de sua total responsabilidade e liberdade continuar a leitura. Não iremos explicar completamente a história. Você foi avisado.

Você que continua conosco, seja muito bem-vindo. Eu particularmente gosto muito de conversar sobre livros e filmes, e há uma razão muito especial para escrever sobre A Cabana. Mas antes de finalmente chegarmos à mensagem, gostaria de esclarecer alguns pontos muito importantes.

Há muitas críticas e acusações vindas de grupos de diferentes religiões sobre o escritor William P. Young sobre a forma como ele desenvolveu o encontro de Mackenzie com Deus. Acusações de heresia, blasfêmia, misticismo, e sincretismo religioso (mistura ou reunião de diferentes doutrinas). Além disso, a maior acusação, segundo às críticas e discussões, é a personificação de Deus. Deus Pai como Elousia, uma mulher negra enorme. Deus Filho, Jesus, um homem de trinta e poucos anos, com traços semelhantes aos do Oriente Médio, e Espírito Santo, uma mulher asiática chamada Sarayu.

O Livro A Cabana é considerado uma Ficção Cristã, logo, não é baseado estritamente nas Escrituras. De maneira didática e pessoal, cria algumas situações no enredo qual é possível analisarmos o agir e a soberania de Deus. Didática, pois através de simples ilustrações conseguimos entender melhor a Criação, como quando Mack conversa com Papai sobre os pássaros.

“- Um pássaro não é definido por estar preso ao chão, mas por sua capacidade de voar. Lembre-se disso: os seres humanos não são definidos por suas limitações, e sim pelas intenções que tenho para eles. Não pelo o que parecem ser, mas por tudo que significa ser criado à minha imagem.” Pág. 90

Pessoal, pois retrata Deus de forma pessoal, como alguém com quem nós podemos conversar, criar vínculos, nos relacionar, amar. Além da quebra de estereótipos sobre como é "a aparência" de Deus. Ele não possui essas características superficiais, mas foi a maneira que encontrou para se aproximar de Mack.

“- Se você deixar, Mack, serei o pai que você nunca teve.” Pág. 82

Quando li o livro pela primeira vez, eu estava saindo de um estágio de tristeza profunda, qual eu não queria conversar e sair com ninguém devido os efeitos reversos de um remédio. Eu desenvolvi problemas na adolescência, e quando finalmente fui curado, os sentimentos de ódio aumentaram, e eu me afundei mais ainda. Na época, eu não conhecia Deus como o conheço hoje, então isso dificultou muito as coisas. Eu não queria enxergar, mas esse livro foi um dos instrumentos que me ajudaram a querer conhecer o verdadeiro Deus que salvou a minha vida. Me ajudou a enxergar que eu não poderia ser mais o juiz das situações. Que as coisas que aconteciam não eram culpa de Deus. Que eu precisaria perdoar e ser perdoado. Amar, e ser amado. Viver, e não como um fardo pesado, mas com a certeza de uma vida abundante e transcendente.

No decorrer da história, podemos perceber que Mack já tinha traumas desde sua infância que eram carregados e enraizados em sua vida. Ele constituiu uma família, tinha amigos, trabalhava, ia à igreja. Internamente, existia uma guerra sendo travada, todos os dias, para que ele pudesse ser um pai que nunca teve.

Durante a grande tristeza, como ele mesmo chamava sua depressão, não consegue lidar com a perda de sua filha caçula. Não consegue lidar com seus outros dois filhos e sua mulher que tenta reerguer sua família. Ela tenta ajudar, mas Mack não só não consegue, mas não quer. Não há razões para continuar vivo, mas Deus se apresenta a ele, e transforma a sentença de morte, em vida. Assim é conosco.

Mack, inconscientemente, estava mudando. Tudo o que guardava para si, começou a despejar na presença de Deus. Além de todos os seus traumas, seu interior estava totalmente ferido e revoltado.

“Esse negócio da presença de Deus, embora difícil de entender, parecia estar penetrando constantemente em sua mente e em seu coração.” Pág. 99

Quantas vezes questionei e duvidei de Deus. “Por que eu? O que de tão ruim eu fiz para merecer esse fardo? E as outras pessoas? Assassinos, mentirosos, corruptos, estupradores. Por que eles também não passam por isso?” Enquanto orava, eu me perguntava se aquilo realmente fazia sentido. Eu nem acreditava mais nele.

Mack julgava as pessoas e o mal que existia no mundo. Assim como toda a queda humana foi e é consequência do pecado, se ele escolhesse se matar, sua família não teria um final feliz.
Aquilo que acontecia comigo não era castigo de Deus, mas consequência. Não era sobre o que Deus poderia ter feito para evitar as coisas más, mas sobre as más escolhas que eu havia feito.
A partir da escolha de seguirmos a perfeita e agradável vontade d’Ele, os sofrimentos que temos servirão para uma glória ainda maior. Não é uma justificativa para as próximas quedas, mas a remissão e restauração disponíveis aos que se rendem verdadeiramente.

“Há milhões de motivos de permitir a dor, a magoa e o sofrimento, em vez de erradicá-los, mas a maioria desses motivos só pode ser entendida dentro da história de cada pessoa. Eu não sou má. Vocês é que abraçam o medo, a dor, o poder e os direitos em seus relacionamentos. Mas suas escolhas também não são mais fortes do que os meus propósitos, e eu usarei cada escolha que vocês fizerem para o bem final e para o resultado mais amoroso.” Pág. 114

O Espirito Santo age dentro de nós. Ele é convidado e de forma sobrenatural, cuida do nosso interior, nos transformando cada vez mais, na medida que o deixamos fluir. Ele arranca o que é podre, sujo, o que é venenoso, para nos regenerar e trazer a identidade que quem nós realmente viemos ser. O Espírito estabelece um relacionamento, e nos mostra o que e como devemos fazer para estarmos ligados com Deus. Assim, somos guiados, não pelas nossas vontades vãs e tolas, egocêntricas e manipuladoras, mas pela perfeita e maravilhosa vontade do Pai, em amar e ser amado.

Eu tenho percebido nos últimos dias que Deus está me levando ao lugar onde eu estava preso. Até mesmo com a reflexão sobre A Cabana, só que agora com Ele. Aconteceram muitas coisas de alguns meses para cá, e isso me gerou muito medo. Muito medo. E eu me esqueci do seu maior ensinamento. O amor. Se eu não estiver baseado primeiro no Seu Amor, não há como continuar, porque não haverá mais nada.

“A pessoa que vive dominada pelos medos não encontra liberdade no meu amor. Não estou falando de medos racionais, ligados à perigos reais, e sim de medos imaginários, e especialmente da projeção desses medos no futuro.” Pág. 130

Desde o início, Deus queria e quer relacionamento. E no relacionamento está o Seu prazer. Não dita placa de igreja, pessoas a serem seguidas, medidas e ordens a serem cumpridas, mas quer comunhão, liberação de perdão, liberdade e prazer em obedecer.

“- É uma árvore da vida, Mack, crescendo no jardim do seu coração.” Pág. 217

É muito difícil ter que lidar com nossos próprios medos. Mas hoje eu oro para que esse Amor seja intensificado até não sobrar mais espaço para o medo, e que eu possa compreender e viver mais disso na minha vida. Quando a verdadeira vida, nasce no nosso coração, toda dor é temporária. Toda dor é como um sopro, comparado com a vida que teremos lado a lado com o nosso Papai. E eu não vejo a hora.

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