sábado, 1 de abril de 2017

A felicidade bateu à porta, mas eu não abro


Acordei alguns minutos antes do despertador tocar. E apesar de estar muito cansado, eu não conseguia voltar a dormir. Amanheceu nevando, e da janela era possível enxergar raios de sol que abriam pequenos rasgos nas grandes nuvens. Comecei a pensar como seria o decorrer do dia, as demais pessoas e situações que iria lidar e enfrentar assim que o despertador tocasse. O tempo não passava, e além do que seria previsto para o dia, começaram a surgir pequenas discussões tolas na minha mente. Era como se eu procurasse, involuntariamente, algum motivo no decorrer do dia para descarregar toda minha ansiedade e frustração. Todos haviam saído de casa antes de eu acordar. Peguei o cobertor, coloquei sobre os ombros e fui preparar o café. Há algumas semanas atrás eu havia me sentido totalmente renovado, mas depois de duas longas semanas doente, perdi peso, motivação, eu me perdi.
Mas eu tenho sentido algo diferente. Uma inquietação incomum. E eu poderia até mesmo tentar me satisfazer com algo, mas isso realmente não me traria paz. Estou doente. Insatisfeito. Inquieto. Instigado. Cansado de tudo que possa me atingir de forma inusitada. A aparência de uma felicidade transfere-se a um sentimento monótono e redundante. Meu corpo não dói mais. Mas minha alma sim. Ela clama por algo ou alguém que perpetue.
Sinto-me vazio de tudo, e eu não quero que ela venha se encher de algo que rapidamente perderá seu valor. Prefiro seca à chuva passageira. Se ela não vier como uma tempestade que permanece, que me afogue, que me mate e me traga a vida, eu não quero.
Sentei a mesa, e enquanto tomava meu café abri um livro e li cerca de umas sete, oito páginas, e nenhum sinal do toque do despertador. Não era possível. Ele estava funcionando, e pronto a tocar no horário, mas o tempo parecia ter parado, diante de toda correria e desespero, o tempo parou. 

Alguém bateu à porta, mas eu não abro.

A casa estava uma bagunça. Estávamos em reforma dentro e fora de casa, e no meio do processo, a única estrada de acesso à cidade grande foi interditada por queda de centenas de árvores após o último terremoto, impedindo a ida e vinda dos caminhões. Nós estávamos vivendo e trabalhando no terreno de plantações e armazéns depois das montanhas, lado contrário à cidade. Nossa casa era toda de madeira, no alto de uma das montanhas, vizinha de uma pequena cidadezinha no vale. Ela era uma das casas mais bonitas da paisagem, devido às inúmeras espécies de folhas e flores que surgiam na sacada da entrada principal. Mas o tempo passou, e junto com a reforma adiada, o jardim tomou seu espaço no esquecimento. Ninguém mais passava por lá. Ela perdera seu valor real, e eu a enxergava como pó, pronto a ser levado pelo vento, sem ao menos alguém sentir sua falta.

A pessoa persistiu. Mas quem seria? Um ladrão? Batendo na porta? Não. A estrada estava fechada. Estava nevando. Quem teria interesse numa casa velha em lugar nenhum? O jardim estava seco e um dos lados da sacada estava quebrada. Eu não vou abrir. Ela provavelmente percebeu que a casa está praticamente abandonada, e não há ninguém em casa. 
“Gabriel!”, o homem gritou. “Sou eu, não lembra?”. Fiquei perplexo e corri para o lado da janela onde conseguiria ver quem era a pessoa. Ele sabia que tinha alguém em casa, e sabia quem eu era. 
“Gabriel, eu sei que está aí. Na verdade, eu sempre soube, mesmo quando você não me conhecia. Eu sei que você sabe quem eu sou, mas você custa não acreditar. Você me tinha como seu melhor amigo, mas agora você se distância de todos e de mim, tentando encontrar alguma resposta. A reforma da casa parou, você sabe que pode e tem condições de abrir um novo caminho paralelo ao que as árvores caíram. Você até pensou e separou as ferramentas, escolheu pessoas que você poderia contar para ajudar, mas você desistiu. A reforma não acabou porque você não quer. Qual é o seu maior medo? O que te fizeram? O que você se fez?”
Era Ele. Antes mesmo dele bater a porta, eu senti suas pisadas em cada degrau. Sua mão apoiada no corrimão chegando à porta. Como sua matéria pode ter resistido tamanha presença sobrenatural? Eu sempre lhe pedi para que me enviasse sinais e confirmações para que eu pudesse tomar as devidas decisões, mas Ele é tão soberano, que permite que esta decisão seja tomada exclusivamente por mim.

Eu me aproximei a porta, e perto de virar a maçaneta, minha outra mão a segurou e fechou a porta de volta. Cabisbaixo e frente a porta, eu me afastei alguns passos para trás. “Eu tenho muito medo, e você sabe disso. Eu não consigo controlá-lo, e você também sabe disso. Você me dá oportunidades quais eu nunca achei que conseguiria lidar, mas quando ele vem, eu perco tudo. Você me fez enxergar como as pessoas gritam silenciosamente por vida. Você me fez amá-las como Você me ama, e continua me amando, mas quando o medo vem, as setas e provações tornam-se gigantes prontos a me derrubar com um só golpe. Você me disse para eu permanecer e ser perseverante, mas eu estou tão cansado, e só Você sabe o quanto. Você me chamou e me deu armas de fé, mas o medo cresceu, e eu não acho que sou digno de nada disso. Não mereço até mesmo falar com Você atrás de uma simples folha de madeira. O que, afinal, Você enxergou em mim?”, e então, extremamente ansioso para ver seus olhos, eu consigo abrir a porta lentamente, enquanto Ele, mais ansioso ainda, empurrou a porta batendo-a na parede e correu para me abraçar, dizendo “Porque não se trata de uma tarefa a ser concluída, se trata de uma escolha.”

Sua Presença encheu todos os cômodos da casa como nuvens palpáveis que corriam depressa e com força. Eu ouvia os móveis sendo arrastados e as coisas jogadas no chão sendo arremessadas para outro lado, enquanto permanecia abraçado com Ele. Era tão forte, tão verdadeiro, que era como se Ele tivesse abraçando a minha alma. Parecia que toda a mobília e paredes atrás de mim estavam sendo quebradas, mas de onde eu estava só conseguia enxergar apenas as flores secas da sacada sendo absorvidas pela terra que era preparada para algo novo.
Ele me soltou, e me puxando com um de seus braços nas minhas costas me levou a sacada para fora da casa, e com a outra mão apontava para a terra.
“Essa terra é você, Gabriel. Ela estava morta, eu a fiz fértil. Ela passou a produzir novas plantas. Ela perdeu seus nutrientes, mas produzia plantas secas e mortas. Elas não deixavam as novas folhas surgirem, pois elas tomavam conta do espaço, do tempo, do seu solo. Eu as arranquei, e agora trago água viva à você. Mas a água vem quando você escolhe, entenda isso. Quando você busca. Se esvazia, fica completamente seca, Eu o encho com os nutrientes verdadeiros. É como uma fogueira. Ela só permanece viva quando escolhemos colocar lenha para queimar. Quando paramos de alimentá-la, ela se apaga. A terra precisa ser preparada, para que ela possa frutificar e ser boa para você.”
Sem que eu conseguisse falar, Ele continuou. “A reforma só começou, mas você precisa arregaçar as mangas, lançando fora o medo que carrega. Eu te escolhi porque em tudo há um propósito. Não duvide disso, Gabriel. Você só precisa aprender a depender de mim.”

8 comentários:

  1. Eu te escolhi porque em tudo há um propósito. Não duvide disso. Que texto <3

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    1. Os sonhos que Ele tem para nós são maiores e melhores do que pensamos e imaginamos... Não podemos duvidar, nunca. Muito obrigado!

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  2. Nunca li algo tão reflexivo e tão cheio de ações que me fez enxergar o meu interior! Ao ler esse texto eu imaginei toda a cena. E justamente na parte "Essa terra é você, Gabriel." Veio sobre mim e sobre o ambiente um silêncio que despertou interiormente como estava a cidade da minha vida. Realmente, Jesus é lindo e ele enche todas as lacunas do nosso ser. Obrigado por me proporcionar algo tão pensado.

    aislanfaustino.blogspot.com.br

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    1. Muito feliz por seu comentário, Aislan. Que Jesus seja o centro das nossas vidas, todos os dias.

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  3. Obrigada por escrever.
    Obrigada Jesus, por ter dado esse dom a esse rapaz...
    Que esse texto alcance as pessoas certas nas horas certas, assim como me alcançou.
    Que Deus te abençoe muito!
    Já amo você meu irmão.
    <3

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    1. Gabrielle, esse é o nosso sonho! Que as pessoas sejam alcançadas pela Verdade que é Jesus! Muito obrigado pelas suas palavras.

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