sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ser vulnerável é um ato de coragem


“Então veio um leproso e, ajoelhando-se, disse: Senhor, se quiseres, podes purificar-me. Jesus estendeu a mão e o tocou, dizendo: Quero; sê purificado. No mesmo instante ele foi purificado da lepra.” Mateus 8: 2-3

Lendo o Livro de Mateus, me deparei com essa passagem do homem leproso. Eu já havia lido essa passagem, mas ela me foi revelada de uma forma surpreende para embasar o que tenho aprendido nos últimos meses sobre ser vulnerável.
Mas afinal, vulnerabilidade é uma virtude? Um privilégio? Ou não passa de um estado de fraqueza?
Segundo o significado geral, vulnerabilidade é um estado de fraqueza, fragilidade, insegurança e instabilidade em comportamentos, situações e ideias. É estar vulnerável a algo ou alguém.

Você deve estar pensando “Desde quando ser fraco e frágil é um privilégio? Se sentir inseguro é confortável? E ser instável, então?!”. É, eu também pensava assim. Depois de alguns anos, percebi que não poderia confiar em muitas pessoas, porque elas realmente me feriram de alguma forma. E demonstrar minha fraqueza seria inadmissível. Essas feridas nunca mais poderiam ser abertas. Mas sem o devido cuidado e remédio, elas tenderiam a infeccionar.

Enquanto Jesus descia o monte, o homem leproso aproximou-se, e ajoelhando-se, pede que a vontade Dele seja feita: “Senhor, se quiseres, podes purificar-me.”Jesus não pergunta o desejo do homem, mas segue lhe dando a primeira ordem: Quero; sê purificado.”, e na mesma hora, o homem foi completamente limpo.

É visível as feridas que a doença da lepra causa nas pessoas, e por ser contagioso, os leprosos ficavam separados da sociedade naquela época, em casas mais afastadas, sem ter contato humano e sem poder andar livremente em público. Ela era excluída de todas as interações sociais e humanas. Imagino esse homem saindo do seu lugar, e o desafio de se aproximar de Jesus em meio à tantas pessoas. Ele deve ter enfrentado uma luta contra si mesmo e preso num grande dilema antes de chegar naquele momento. Era tudo ou nada. Ser curado ou expulso da cidade por infringir as leis. Ele estava completamente vulnerável. Suas feridas estavam expostas. Mas ele continuou, e não perdeu sua libertação.

Não importa a sua doença. Seja ela física, mental, não importa. Jesus quer que façamos como aquele homem, em meio à multidão. Um corajoso que não se importou com o que poderia acontecer com ele, caso seu objetivo não fosse alcançado.

Vulnerabilidade não é uma virtude, mas ela é essencial para a nossa redenção e purificação. É sobre não precisar vestir máscaras para frequentar lugares. Sobre não ter que alcançar nenhuma expectativa alheia que as pessoas criam sobre quem você é. Sobre não depender de redes sociais. É saber até onde seu corpo e mente alcançam. Sobre desistir, se necessário. Mas é sobre não se perder. Sobre ser você, e renovar a fé diariamente.
É sobre chorar até não ter mais lágrimas. Sobre reconhecer que somos dependentes do nosso Pai, mais do que qualquer outra coisa. Sobre correr entre a multidão sem ficar preso às consequências e se apresentar diante do único objetivo que deve ser Jesus.
Ser vulnerável é reconhecer o nosso estado humano deplorável em que nos encontramos. É um ato de coragem, qual poucos desejam confrontar.

“Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados.” Mateus 5: 4

sábado, 27 de maio de 2017

Olhos Limpos


Lendo o livro de Mateus, pude me deparar com umas das minhas passagens preferidas dos ensinamentos de Jesus. Depois de Jesus andar pela Galileia, ensinando e anunciando o Reino, as notícias se espalharam nas cidades vizinhas e grandes multidões passaram a segui-lo. No Sermão do Monte (Mateus 5) Jesus sobe o monte e a multidão se reúne para ouvir seus ensinamentos, e um deles é sobre o costume de julgar os outros.

“Por que é que você vê o cisco que está no olho do seu irmão e não repara na trave de madeira que está no seu próprio olho? Como é que você pode dizer ao seu irmão: “Me deixe tirar esse cisco do seu olho”, quando você está com uma trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão. ” Mateus 7: 3-5

Há alguns dias atrás, cheguei em casa e logo que entrei no banho senti um cisco no meu olho direito. Tentei tirá-lo com água corrente, e nada. Fui até o espelho tentar limpar, e nada. Eu não conseguia deixar o olho aberto e nem fechado por muito tempo que incomodava muito. Apliquei soro, pedi ajuda, e nada. Então, sem nenhum resultado positivo parei em frente ao espelho e disse em voz alta “Espirito Santo, tira esse cisco do meu olho”, e sem eu ter feito nada, pisquei, e na hora meu olho parou de doer. O cisco havia sumido.

Eu não acredito em coincidências. Aquilo foi real, e por mais que fosse um problema menor que um grão de areia, estava tomando toda a minha atenção. Naquela mesma noite, lendo o livro de Mateus, li os capítulos 5, 6, e 7. Mas por que essa mensagem veio a mim? Eu não julgava mais as pessoas, não estava sendo mais o juiz. O que Deus queria dizer, afinal?

Não julgue o teu próximo, nem mesmo em pensamento. Assim como você possui suas limitações, as outras pessoas também. Não justifique o seu pecado como menos pior, porque isso não faz de você mais santo. Não justifique seu pecado olhando para os pecados dos outros, porque não se trata de mérito. Não justifique seu pecado por ele estar em secreto, pois é em secreto que a essência de identidade é gerada. Não adianta julgar o mentiroso, se você mente para si mesmo. Não aponte, e não olhe com olhos de julgamento, mas com olhos de amor. Porque foi assim que Jesus enxergou você. As pessoas precisam ter seus olhos limpos, não com mãos apontando, mas mãos dispostas a ajudar.

Cuide da tua visão. Ela é porta de entrada para sua alma. O pecado é gerado em pensamento, e nossa mente é gerada através do que vemos. Não justifique seus atos pela contaminação do mundo. Quando chegar nas suas limitações, lembre-se que Jesus ultrapassa todas elas. Quando não conseguir enxergar com clareza, lembre-se que Jesus quer limpar completamente seus olhos. Quando não tiver para onde ir, lembre-se que Ele é o único caminho.
Se Jesus pagou o preço, por que precisaria tentar me limpar com minhas próprias forças? É preciso entregar a minha visão a Ele, para que Ele me faça enxergar o que realmente importa. O que realmente, é Eterno.

“Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e joga-o fora; pois é melhor para ti perder um dos teus membros do que ter todo o corpo lançado no inferno.” Mateus 5: 29

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Precisamos falar sobre A Cabana

Site Guia da Semana

Aviso: O texto abaixo contém spoilers e reflexões sobre o Livro e o Filme “A Cabana”. Se você não leu o livro ou não assistiu ao filme e deseja continuar, recomendamos que consulte a sinopse, sendo de sua total responsabilidade e liberdade continuar a leitura. Não iremos explicar completamente a história. Você foi avisado.

Você que continua conosco, seja muito bem-vindo. Eu particularmente gosto muito de conversar sobre livros e filmes, e há uma razão muito especial para escrever sobre A Cabana. Mas antes de finalmente chegarmos à mensagem, gostaria de esclarecer alguns pontos muito importantes.

Há muitas críticas e acusações vindas de grupos de diferentes religiões sobre o escritor William P. Young sobre a forma como ele desenvolveu o encontro de Mackenzie com Deus. Acusações de heresia, blasfêmia, misticismo, e sincretismo religioso (mistura ou reunião de diferentes doutrinas). Além disso, a maior acusação, segundo às críticas e discussões, é a personificação de Deus. Deus Pai como Elousia, uma mulher negra enorme. Deus Filho, Jesus, um homem de trinta e poucos anos, com traços semelhantes aos do Oriente Médio, e Espírito Santo, uma mulher asiática chamada Sarayu.

O Livro A Cabana é considerado uma Ficção Cristã, logo, não é baseado estritamente nas Escrituras. De maneira didática e pessoal, cria algumas situações no enredo qual é possível analisarmos o agir e a soberania de Deus. Didática, pois através de simples ilustrações conseguimos entender melhor a Criação, como quando Mack conversa com Papai sobre os pássaros.

“- Um pássaro não é definido por estar preso ao chão, mas por sua capacidade de voar. Lembre-se disso: os seres humanos não são definidos por suas limitações, e sim pelas intenções que tenho para eles. Não pelo o que parecem ser, mas por tudo que significa ser criado à minha imagem.” Pág. 90

Pessoal, pois retrata Deus de forma pessoal, como alguém com quem nós podemos conversar, criar vínculos, nos relacionar, amar. Além da quebra de estereótipos sobre como é "a aparência" de Deus. Ele não possui essas características superficiais, mas foi a maneira que encontrou para se aproximar de Mack.

“- Se você deixar, Mack, serei o pai que você nunca teve.” Pág. 82

Quando li o livro pela primeira vez, eu estava saindo de um estágio de tristeza profunda, qual eu não queria conversar e sair com ninguém devido os efeitos reversos de um remédio. Eu desenvolvi problemas na adolescência, e quando finalmente fui curado, os sentimentos de ódio aumentaram, e eu me afundei mais ainda. Na época, eu não conhecia Deus como o conheço hoje, então isso dificultou muito as coisas. Eu não queria enxergar, mas esse livro foi um dos instrumentos que me ajudaram a querer conhecer o verdadeiro Deus que salvou a minha vida. Me ajudou a enxergar que eu não poderia ser mais o juiz das situações. Que as coisas que aconteciam não eram culpa de Deus. Que eu precisaria perdoar e ser perdoado. Amar, e ser amado. Viver, e não como um fardo pesado, mas com a certeza de uma vida abundante e transcendente.

No decorrer da história, podemos perceber que Mack já tinha traumas desde sua infância que eram carregados e enraizados em sua vida. Ele constituiu uma família, tinha amigos, trabalhava, ia à igreja. Internamente, existia uma guerra sendo travada, todos os dias, para que ele pudesse ser um pai que nunca teve.

Durante a grande tristeza, como ele mesmo chamava sua depressão, não consegue lidar com a perda de sua filha caçula. Não consegue lidar com seus outros dois filhos e sua mulher que tenta reerguer sua família. Ela tenta ajudar, mas Mack não só não consegue, mas não quer. Não há razões para continuar vivo, mas Deus se apresenta a ele, e transforma a sentença de morte, em vida. Assim é conosco.

Mack, inconscientemente, estava mudando. Tudo o que guardava para si, começou a despejar na presença de Deus. Além de todos os seus traumas, seu interior estava totalmente ferido e revoltado.

“Esse negócio da presença de Deus, embora difícil de entender, parecia estar penetrando constantemente em sua mente e em seu coração.” Pág. 99

Quantas vezes questionei e duvidei de Deus. “Por que eu? O que de tão ruim eu fiz para merecer esse fardo? E as outras pessoas? Assassinos, mentirosos, corruptos, estupradores. Por que eles também não passam por isso?” Enquanto orava, eu me perguntava se aquilo realmente fazia sentido. Eu nem acreditava mais nele.

Mack julgava as pessoas e o mal que existia no mundo. Assim como toda a queda humana foi e é consequência do pecado, se ele escolhesse se matar, sua família não teria um final feliz.
Aquilo que acontecia comigo não era castigo de Deus, mas consequência. Não era sobre o que Deus poderia ter feito para evitar as coisas más, mas sobre as más escolhas que eu havia feito.
A partir da escolha de seguirmos a perfeita e agradável vontade d’Ele, os sofrimentos que temos servirão para uma glória ainda maior. Não é uma justificativa para as próximas quedas, mas a remissão e restauração disponíveis aos que se rendem verdadeiramente.

“Há milhões de motivos de permitir a dor, a magoa e o sofrimento, em vez de erradicá-los, mas a maioria desses motivos só pode ser entendida dentro da história de cada pessoa. Eu não sou má. Vocês é que abraçam o medo, a dor, o poder e os direitos em seus relacionamentos. Mas suas escolhas também não são mais fortes do que os meus propósitos, e eu usarei cada escolha que vocês fizerem para o bem final e para o resultado mais amoroso.” Pág. 114

O Espirito Santo age dentro de nós. Ele é convidado e de forma sobrenatural, cuida do nosso interior, nos transformando cada vez mais, na medida que o deixamos fluir. Ele arranca o que é podre, sujo, o que é venenoso, para nos regenerar e trazer a identidade que quem nós realmente viemos ser. O Espírito estabelece um relacionamento, e nos mostra o que e como devemos fazer para estarmos ligados com Deus. Assim, somos guiados, não pelas nossas vontades vãs e tolas, egocêntricas e manipuladoras, mas pela perfeita e maravilhosa vontade do Pai, em amar e ser amado.

Eu tenho percebido nos últimos dias que Deus está me levando ao lugar onde eu estava preso. Até mesmo com a reflexão sobre A Cabana, só que agora com Ele. Aconteceram muitas coisas de alguns meses para cá, e isso me gerou muito medo. Muito medo. E eu me esqueci do seu maior ensinamento. O amor. Se eu não estiver baseado primeiro no Seu Amor, não há como continuar, porque não haverá mais nada.

“A pessoa que vive dominada pelos medos não encontra liberdade no meu amor. Não estou falando de medos racionais, ligados à perigos reais, e sim de medos imaginários, e especialmente da projeção desses medos no futuro.” Pág. 130

Desde o início, Deus queria e quer relacionamento. E no relacionamento está o Seu prazer. Não dita placa de igreja, pessoas a serem seguidas, medidas e ordens a serem cumpridas, mas quer comunhão, liberação de perdão, liberdade e prazer em obedecer.

“- É uma árvore da vida, Mack, crescendo no jardim do seu coração.” Pág. 217

É muito difícil ter que lidar com nossos próprios medos. Mas hoje eu oro para que esse Amor seja intensificado até não sobrar mais espaço para o medo, e que eu possa compreender e viver mais disso na minha vida. Quando a verdadeira vida, nasce no nosso coração, toda dor é temporária. Toda dor é como um sopro, comparado com a vida que teremos lado a lado com o nosso Papai. E eu não vejo a hora.

domingo, 16 de abril de 2017

O jardim em transformação

Hoje eu tive uma tarefa muito importante. E por mais que arranjasse algumas desculpas para me esquivar da responsabilidade, cuidar do jardim, tornou-se uma lição para a vida. Então destaquei 5 pontos importantes para você, que assim como eu, deseja ser transformado pelo Criador.

O jardim é uma bagunça

Assim que me deparei com a situação que o jardim estava, pensei em desistir. Não importava o tempo que levaria do dia, não seria o bastante para mudá-lo completamente.

Precisamos reconhecer que nós somos uma bagunça. Um dia acordamos bem com nós mesmos, mas no outro nos odiamos como se tivéssemos feito um mal terrível. Felizes, realizados, amados. Depressivos, ansiosos, desprezados. Precisamos entender quão egocêntricos e orgulhosos nós somos. Deus nos ama, independente do que façamos, mas nós só somos capazes de nos sentirmos amados, quando reconhecemos quem somos, e que dependemos desse Amor mais do que qualquer outro.

Deus não quer esperar para o dia em que estaremos prontos para um encontro genuíno com Ele. Ainda há tempo, mas Ele nos quer agora.

O jardim precisa ser cuidado

Havia muita coisa a ser feita. Peguei as ferramentas para recolher as folhas, cortar a grama e podar os galhos das árvores. Era um trabalho árduo, que exigia minha completa concentração, força, sabedoria. Era cansativo, mas muito gratificante como o jardim estava sendo mudado. Ele sofria alterações visíveis, mas as não tão visíveis eram as mais vitais para sua recuperação.

Ser moldado por Jesus é absurdamente gratificante. Nós conhecemos Ele, e conhecemos a nós mesmos. Não como somos, pelo o que a sociedade nos define, mas pelo nosso caráter diante de quem nos criou, e para o que viemos ser.

Precisamos ter o cuidado necessário para largar tudo que nos impede de viver verdadeiramente. Exige nosso posicionamento diante das nossas zonas de conforto, crostas e sujeira que nem sabíamos que guardávamos dentro de nós mesmos. A mudança acontece, quando escolhemos mudar.

Algumas raízes precisam ser arrancadas

Percebi que algumas raízes profundas impediam o enraizamento das novas plantas e mudas. Elas corriam para todos os lados, e enforcavam tudo a sua volta. Elas tomavam tudo, e enquanto tentava arrancá-las, elas levavam parte do solo e das raízes das outras plantas.

Os traumas e decepções que carregamos durante anos da nossa vida como lembranças, tornam-se fortes perturbações que nos impedem de tomar novas decisões. Ao invés de nos servir como um forte antidoto para não nos acontecer novamente, a sensação é como um ácido corrosivo.

As lembranças ou ações que não nos trazem bem algum, precisam ser arrancadas. Até a última raiz podre que impede o agir de Deus.

O florescer e o frutificar exigem mais de você, do que das estações

Uma das árvores floresceu majestosamente, lançando seu perfume suave sobre todo o local. A que tinha suas raízes tomadas pelas raízes podres não frutificou. E uma delas, frutificou além do necessário, e seus frutos eram tantos que nem o solo era capaz de absorver.

Quando estamos totalmente ligados em Cristo, frutificamos como uma boa árvore, no tempo e propósito d’Ele. Quando não nos abastecemos da verdadeira fonte, somos facilmente influenciados e manipulados, nos tornamos inférteis. Mas quando produzimos falsos frutos, o problema está na fidelidade e entrega real do nosso coração.

No que você está se baseando? Na mensagem da cruz que revela liberdade ou massageando seu ego através do que Jesus fez na sua vida?

Mesmo que você esteja “mostrando serviço” ou “dando a cara a tapa” pelo evangelho, você pode estar sendo motivado pelo motivo errado. Deus é soberano, e não é por culpa do seu ego que ele deixa de fazer milagres ou trazer alguma palavra de conhecimento para a vida de alguém. O problema não é o pecador que se arrepende e expõe seus pecados, mas do perverso que se diz imitar Jesus, mas que por dentro está completamente podre. Seus frutos são muitos, mas são ruins, sem constância, sem verdade.  

Você não está sozinho

O jardim não ficou pronto. Ele não é o maior, nem o melhor. Não é o mais bonito, nem robusto. Mas Ele não busca jardins perfeitos a serem transformados. Ele busca eu e você.
Há muita coisa a ser feita, mas eu tenho a certeza que não estou sozinho.

sábado, 1 de abril de 2017

A felicidade bateu à porta, mas eu não abro


Acordei alguns minutos antes do despertador tocar. E apesar de estar muito cansado, eu não conseguia voltar a dormir. Amanheceu nevando, e da janela era possível enxergar raios de sol que abriam pequenos rasgos nas grandes nuvens. Comecei a pensar como seria o decorrer do dia, as demais pessoas e situações que iria lidar e enfrentar assim que o despertador tocasse. O tempo não passava, e além do que seria previsto para o dia, começaram a surgir pequenas discussões tolas na minha mente. Era como se eu procurasse, involuntariamente, algum motivo no decorrer do dia para descarregar toda minha ansiedade e frustração. Todos haviam saído de casa antes de eu acordar. Peguei o cobertor, coloquei sobre os ombros e fui preparar o café. Há algumas semanas atrás eu havia me sentido totalmente renovado, mas depois de duas longas semanas doente, perdi peso, motivação, eu me perdi.
Mas eu tenho sentido algo diferente. Uma inquietação incomum. E eu poderia até mesmo tentar me satisfazer com algo, mas isso realmente não me traria paz. Estou doente. Insatisfeito. Inquieto. Instigado. Cansado de tudo que possa me atingir de forma inusitada. A aparência de uma felicidade transfere-se a um sentimento monótono e redundante. Meu corpo não dói mais. Mas minha alma sim. Ela clama por algo ou alguém que perpetue.
Sinto-me vazio de tudo, e eu não quero que ela venha se encher de algo que rapidamente perderá seu valor. Prefiro seca à chuva passageira. Se ela não vier como uma tempestade que permanece, que me afogue, que me mate e me traga a vida, eu não quero.
Sentei a mesa, e enquanto tomava meu café abri um livro e li cerca de umas sete, oito páginas, e nenhum sinal do toque do despertador. Não era possível. Ele estava funcionando, e pronto a tocar no horário, mas o tempo parecia ter parado, diante de toda correria e desespero, o tempo parou. 

Alguém bateu à porta, mas eu não abro.

A casa estava uma bagunça. Estávamos em reforma dentro e fora de casa, e no meio do processo, a única estrada de acesso à cidade grande foi interditada por queda de centenas de árvores após o último terremoto, impedindo a ida e vinda dos caminhões. Nós estávamos vivendo e trabalhando no terreno de plantações e armazéns depois das montanhas, lado contrário à cidade. Nossa casa era toda de madeira, no alto de uma das montanhas, vizinha de uma pequena cidadezinha no vale. Ela era uma das casas mais bonitas da paisagem, devido às inúmeras espécies de folhas e flores que surgiam na sacada da entrada principal. Mas o tempo passou, e junto com a reforma adiada, o jardim tomou seu espaço no esquecimento. Ninguém mais passava por lá. Ela perdera seu valor real, e eu a enxergava como pó, pronto a ser levado pelo vento, sem ao menos alguém sentir sua falta.

A pessoa persistiu. Mas quem seria? Um ladrão? Batendo na porta? Não. A estrada estava fechada. Estava nevando. Quem teria interesse numa casa velha em lugar nenhum? O jardim estava seco e um dos lados da sacada estava quebrada. Eu não vou abrir. Ela provavelmente percebeu que a casa está praticamente abandonada, e não há ninguém em casa. 
“Gabriel!”, o homem gritou. “Sou eu, não lembra?”. Fiquei perplexo e corri para o lado da janela onde conseguiria ver quem era a pessoa. Ele sabia que tinha alguém em casa, e sabia quem eu era. 
“Gabriel, eu sei que está aí. Na verdade, eu sempre soube, mesmo quando você não me conhecia. Eu sei que você sabe quem eu sou, mas você custa não acreditar. Você me tinha como seu melhor amigo, mas agora você se distância de todos e de mim, tentando encontrar alguma resposta. A reforma da casa parou, você sabe que pode e tem condições de abrir um novo caminho paralelo ao que as árvores caíram. Você até pensou e separou as ferramentas, escolheu pessoas que você poderia contar para ajudar, mas você desistiu. A reforma não acabou porque você não quer. Qual é o seu maior medo? O que te fizeram? O que você se fez?”
Era Ele. Antes mesmo dele bater a porta, eu senti suas pisadas em cada degrau. Sua mão apoiada no corrimão chegando à porta. Como sua matéria pode ter resistido tamanha presença sobrenatural? Eu sempre lhe pedi para que me enviasse sinais e confirmações para que eu pudesse tomar as devidas decisões, mas Ele é tão soberano, que permite que esta decisão seja tomada exclusivamente por mim.

Eu me aproximei a porta, e perto de virar a maçaneta, minha outra mão a segurou e fechou a porta de volta. Cabisbaixo e frente a porta, eu me afastei alguns passos para trás. “Eu tenho muito medo, e você sabe disso. Eu não consigo controlá-lo, e você também sabe disso. Você me dá oportunidades quais eu nunca achei que conseguiria lidar, mas quando ele vem, eu perco tudo. Você me fez enxergar como as pessoas gritam silenciosamente por vida. Você me fez amá-las como Você me ama, e continua me amando, mas quando o medo vem, as setas e provações tornam-se gigantes prontos a me derrubar com um só golpe. Você me disse para eu permanecer e ser perseverante, mas eu estou tão cansado, e só Você sabe o quanto. Você me chamou e me deu armas de fé, mas o medo cresceu, e eu não acho que sou digno de nada disso. Não mereço até mesmo falar com Você atrás de uma simples folha de madeira. O que, afinal, Você enxergou em mim?”, e então, extremamente ansioso para ver seus olhos, eu consigo abrir a porta lentamente, enquanto Ele, mais ansioso ainda, empurrou a porta batendo-a na parede e correu para me abraçar, dizendo “Porque não se trata de uma tarefa a ser concluída, se trata de uma escolha.”

Sua Presença encheu todos os cômodos da casa como nuvens palpáveis que corriam depressa e com força. Eu ouvia os móveis sendo arrastados e as coisas jogadas no chão sendo arremessadas para outro lado, enquanto permanecia abraçado com Ele. Era tão forte, tão verdadeiro, que era como se Ele tivesse abraçando a minha alma. Parecia que toda a mobília e paredes atrás de mim estavam sendo quebradas, mas de onde eu estava só conseguia enxergar apenas as flores secas da sacada sendo absorvidas pela terra que era preparada para algo novo.
Ele me soltou, e me puxando com um de seus braços nas minhas costas me levou a sacada para fora da casa, e com a outra mão apontava para a terra.
“Essa terra é você, Gabriel. Ela estava morta, eu a fiz fértil. Ela passou a produzir novas plantas. Ela perdeu seus nutrientes, mas produzia plantas secas e mortas. Elas não deixavam as novas folhas surgirem, pois elas tomavam conta do espaço, do tempo, do seu solo. Eu as arranquei, e agora trago água viva à você. Mas a água vem quando você escolhe, entenda isso. Quando você busca. Se esvazia, fica completamente seca, Eu o encho com os nutrientes verdadeiros. É como uma fogueira. Ela só permanece viva quando escolhemos colocar lenha para queimar. Quando paramos de alimentá-la, ela se apaga. A terra precisa ser preparada, para que ela possa frutificar e ser boa para você.”
Sem que eu conseguisse falar, Ele continuou. “A reforma só começou, mas você precisa arregaçar as mangas, lançando fora o medo que carrega. Eu te escolhi porque em tudo há um propósito. Não duvide disso, Gabriel. Você só precisa aprender a depender de mim.”

sábado, 25 de março de 2017

O que importa é a gratidão durante a corrida


Os três últimos textos postados expressam algumas fases que se encerraram na minha vida. Fases que foram essenciais para o ponto onde quero chegar neste texto: O fim de algo é o começo de um novo.
A tempestade em que nos encontramos, seja emocional, espiritual, familiar ou em relacionamentos, como descrito na crônica Bebendo da Tempestade é criada por decisões e ações inesperadas que tomamos pela nossa ansiedade ou impulso. A intenção pode até parecer boa, mas se o nosso coração não está segundo o coração de Deus, as coisas podem sair do controle.
Os questionamentos sobre a morte e as escolhas em vida, a série de mortes repentinas de conhecidos e nos noticiários, como descrito em E se você não acordar amanhã?
E depois, a importância da nossa relação pessoal com Jesus, num relacionamento real e constante, apaixonante e independente de referências quais nos apegamos na nossa caminhada, e a importância da comunhão até sermos um com Ele, como em Comunhão.
Mas eu não queria que as minhas experiências fossem apenas fontes para alguns testemunhos, conselhos ou o fato de cumprir com as minhas expectativas para o Voz Impressa. Não queria que o “meu Deus fosse apenas fonte da minha filosofia de vida.
Cogitei parar com os textos, mas cá estou eu, incomodado, mas profundamente grato por escrever novamente. Grato por você que está lendo isto. Por você que saindo daqui, vai direto nos outros textos citados para tentar compreender mais a fundo. Mas não é um processo fácil.

“O fim de algo é o começo de um novo.”

É gratificante chegarmos na linha de chegada depois de uma corrida. Quando chegamos ao pódio, reconhecemos nossa força, velocidade, resistência, resiliência, determinação. Agradecemos a todos que fizeram parte.
Mas é difícil ser grato durante o processo. Começamos a pegar velocidade, ultrapassamos obstáculos, muitos deles criados por nós mesmos, e nos esquecemos de sermos gratos no durante.
Gratidão não significa ser manso, tranquilo e “deixar a vida me levar”, mas um processo de transformação, mudança de perspectiva, um processo que emana amor, fidelidade, graça. A paciência e mansidão são desenvolvidas na prática da gratidão.
Nessa nova corrida que se inicia, eu sou grato por ela. Grato pelo céu azul e pelas nuvens enquanto corro. Grato pelo o que tenho, pelo o que não tenho, e pelas pessoas que me cercam. Pelas que não me cercam também. Grato pela minha vida. E ainda mais mais grato pelo Pai que eu tenho. Pelo Pai que nesse momento, permanece atento aos passos de cada filho Teu, você e eu. Grato pela paciência que Ele tem por mim, que mesmo na correria, cansaço, se aproxima e me lembra que não será mais do meu jeito.
Hoje eu sou grato pela oportunidade que Ele me dá de começar uma nova corrida, mas sem correr, pois Ele me segura em seus braços.

“Eu, caminhante, quero o trajeto terminado
Mas, no caminho, mais importa o durante”

A Partida e o Norte, Estêvão Queiroga.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Comunhão


“E se, de repente, todas as pessoas que você admira e te influenciam digitalmente sumissem das redes para sempre: você saberia quem é? Conseguiria sustentar essa versão de si mesmo? Você tem seguido aquilo que as pessoas que você admira dizem ou aquilo que o seu Pai diz?”, escreveu a escritora Roberta Vicente nas suas redes sociais. E devo admitir, essa postagem estremeceu por completo a minha mente com algo que havia percebido nas semanas anteriores, mas não saberia descrever melhor.

As palavras são duras, mas repetidamente eu as li como uma verdade que já percorria minhas perguntas sem respostas, até aquele momento.

E se todos sumissem? E se todas as mensagens, postagens, textos, frases, filmes, pregações, vídeos no Youtube sumissem? Eu conseguiria sustentar a mesma intimidade e relacionamento com Deus?
E se todas as minhas referências, todos meus amigos cristãos, familiares sumissem, ou simplesmente desistissem do chamado em Cristo, eu ainda escolheria contrariar todos eles e seguir o que eu dizia viver e acreditar?

Me deparei como se estivesse num caminho como qualquer outro. Enxerguei a outra face da religiosidade, enrustida de grandes eventos e ações, pessoas que se diziam prontas a largar tudo e todos para seguir Jesus, mas elas não estavam dispostas. Elas estavam sendo impulsionadas por algo que parecia divertido aos olhos delas. Algo pelo qual você poderia frequentar uma igreja e célula de vez em quando, mas nunca fazer parte real do corpo de Cristo. Um falso evangelho que não cobrava por comprometimento, renúncia, arrependimento. Descartava a vida em santidade, compaixão, comunhão.
Uma religiosidade vestida de um novo mundo gospel atrativo, deixando a intimidade com Deus em segundo plano para viver da autoafirmação, frases motivacionais e aceitação por parte da sociedade pelos seus ideias e estilos.

“Porque chegará o tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas desejando muito ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo seus próprios desejos. E não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão para as fábulas.” 2 Timóteo 4: 3-4

Jesus. Ele é o caminho. E qualquer caminho fora dele, parecido com ele, ou próximo a ele, não é o real, único e verdadeiro. Ele é o único caminho.

Referências são importantes, eu tenho as minhas, e espero que você também tenha e busque as suas próprias. Mas eles são pessoas como nós. São pecadores, falhos, dependentes de Deus. Jesus não é apenas um referencial ou modelo a ser seguido. Ele é perfeito. E pagou um alto preço para que pudéssemos viver a nova aliança. Não desvie seu olhar d’Ele. Ele sabe o que você precisa. Ele sabe quem você realmente é.
Quando se sentir perdido, mesmo no momento que achou que estava o mais próximo d’Ele, mas por um pequeno deslize se desviou novamente, volte! Volte, e olhe para os olhos de Jesus. Volte para a cruz, e entenda a mensagem que ela carrega.

Deus, ressalta a importância da comunhão e o amor para com o próximo em diversas passagens da Palavra.

“Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nos, e seu amor é em nos aperfeiçoado.” 1 João 4: 12

Não se desvie disso! Não pense que atingiu certo nível de maturidade espiritual a ponto de não precisar depender de aconselhamentos, pregações, orações. Assim como o corpo de Cristo, precisamos nos unir a ponto de sermos um só. Ajude e estenda a mão, mande uma mensagem (ou até mesmo esse texto) para a pessoa qual você se preocupa e percebe que está distante. Convide para conversar, orar, desabafar.
Esteja disposto a pedir auxílio quando precisar. Existem momentos que não conseguimos sequer fechar nossos olhos para orar, desabar num ombro amigo, mas nos esquecemos que o maior mandamento que nos foi ordenado é o ato de amar o próximo. Não importa se nunca fizeram isso por você, se você não começar, quem vai? Lembre-se: a Igreja, o corpo de Cristo, somos nós. Esteja pronto e persevere, senão, não precisa nem tentar.

“Portanto, se há em Cristo alguma exortação, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, se há qualquer sentimento profundo ou compaixão, contemplai a minha alegria, para que tenhais o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, o mesmo ânimo, pensando a mesma coisa. Não façais nada por rivalidade nem por orgulho, mas com humildade, e assim cada um considere os outros superiores a si mesmo.” Filipenses 2:  1-3